12.7.07

Venturas e aventuras de um turista.

Venturas e aventuras de um turista quase acidental passando por meu bairro, Saracuruna, eis o relato do Bion.
Vila Inhomirim

Sou mineiro e ao chegar no Rio de Janeiro,em visita a Ela , sofri de um mal que acomete boa parte dos cariocas: o tédio cultural. É quando a gente acha que todas as nossas opções de bons programas acabaram. Estamos sempre com aquela sensação de "já vimos tudo o que tinha pra ver", "não tem nada pra fazer". E quando tem algo muito interessante geralmente esbarramos num problema comum à grande maioria do povo brasileiro: parcas e restritas possibilidades financeiras.

Mas é possível o descobrimento de novas e criativas formas de divertimento, não só atenuando esse tédio, mas incrementando significativamente os nossos conhecimentos e o prazer. Tudo a preços módicos e viáveis.

Ajuda muito, para tais programas, ter ao seu lado ela que topa tudo e ainda é bibliotecária. Ela vai te dar a força necessária para encarar essas novas opções de lazer, vai sempre ter um mapa do estado, vai conhecer todas as linhas de trem, vai saber preço e horário de tudo. Só aviso que a bibliotecaria em questão é pessoal e intransferível, logo cada qual que arrume a sua.

Bem, com esse estado de espírito em mente, embarcamos na última quinta a uma jornada deliciosa, rumo Vila Inhomirim. O destino foi traçado com uma breve visitada ao site da Supervia, a empresa responsável pelos trens do Rio de Janeiro. A linha escolhida foi a 5, com saída, lógico, da Central do Brasil, tendo Vila Inhomirim como estação final.

Zarpamos da Tijuca no final da manhã, pegando um metrô até a Central. Lá esperamos algo como 20 minutos e embarcamos no trem da dita linha. Esse trem passa por Bonsucesso, Olaria, Ramos, Penha, etc., e ainda Vigário Geral, Duque de Caxias, Gramacho e Campos Elíseos.
Confesso que senti um certo frio na barriga ao saber do intinerário do mesmo já que em minha imaginação, povoada pelos fantasmas lidos e ouvidos nos noticiários, formavam-se imagens de um verdadeiro bang bang a céu aberto.

Peço aos leitores que, por favor, perdoem esse preconceito e minhas idéias origialmente pré-concebidas, mas definitivamente a falta de conhecimento e informações reais, aliadas a todas as histórias contadas, me faziam ter delírios de grandes bandidos, pessoas mal-encaradas, lugares escuros e com aparência de grandes perigos. Qual o quê!! O trem seguiu recheado de trabalhadores, pessoas voltando para suas casas, muitos indo visitar amigos e familiares.

É bem verdade que, fazendo turismo, nós parecíamos ser os únicos, mas nem por isso nos sentimos de alguma forma discriminados.

Para quem não tem o hábito de andar de trem, a viagem vale por si só. Existe toda uma agitação, as pessoas conversam, reclamam, contam coisas, existe uma infinidade de ambulantes passando de vagão em vagão, numa feira movimentada onde se pode comprar de tudo um pouco: jujubas de iogurte (muito gostosas), paçoquinhas (a R$ 0,10 cada uma!), chocolates recheados, pilhas, coadores de café, envelopes pra cartas, lixas de unha, amendoins, pipocas doce - aquelas do saco cor-de-rosa (Pipocas Come Come, o sacão por R$ 0,50!!), água, cerveja, picolés coloridos, 10 pirulitos por 1 real... Enfim, não se tem um minuto de tédio na longa viagem que se segue.

O trem avança passando por lugares onde se vêem pessoas atravessando a linha do trem, crianças soltando pipas, andando de bicicleta, jogando bola, roupas estendidas em varais, cavalos pastando no matinho da beira dos trilhos. São lugares, na grande maioria, muito pobres mas que, contra as minha ignorantes expectativas iniciais, esbanjam uma vivacidade, uma aparência de alegria e tranqüilidade, que nos faz repensar a vida.

O trem pego na Central do Brasil, elétrico, na verdade só vai até Saracuruna . Lá troca-se de trem, passando para um puxado a uma locomotiva a diesel, dando a sensação de pouco a pouco deixar a civilização moderna pra trás. O interessante é que esse trecho de Saracuruna - Vila Inhomirim - Saracuruna é grátis, mesmo que você não venha no trem pago.
As estações que se seguem são todas abertas e qualquer pessoa pode entrar e sair do trem sem pagar nada por isso. À medida que fomos nos aproximando do nosso destino final, percebemos uma significativa mudança na paisagem e no clima. Vamos nos avizinhando das montanhas da região serrana do Rio (já deixamos a cidade do Rio de Janeiro pra trás há muito, estou falando já do estado do Rio), as casas começam a ficar mais esparsadas, tudo ganha um ar rural e a temperatura começa a ficar consideravelmente mais amena. Vale a pena prestar atenção às montanhas, sendo sempre possível descobrir uma ou outra grande queda d'água ao longe. Pode-se também admirar os homens-voadores descendo de parapente e pousando em campos vizinhos à linha do trem.

A chegada a Vila Inhomirim, que aconteceu mais ou menos 2 horas depois de nossa saída da Central do Brasil, é surpreendente. Ela é cercada pelas montanhas (o nome anterior era Raiz da Serra, por motivos óbvios, pois é no pé da serra que vai pra Petrópolis), pode-se ver uma típica igreja do interior (Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição), uma pontezinha colorida por cima de um rio amistoso e cheio de pedras e uma construção da antiga estação ferroviária. E, imagina, fica a apenas 17 km de Petrópolis. Pode-se chegar do centro da cidade do Rio até lá por apenas R$ 1,65, ou seja, o valor do bilhete de trem!

Antes de qualquer andança e exploração, tivemos uma conversa com o maquinista e o segurança do trem, afim de nos certificármos do horário de saída do último comboio. Seria às 17:20, o que nos dava umas, ainda, 3 horas de passeios.

A essa hora nossos estômagos, claro, já davam sinal de vida e ansiavam por algo consistente e palatável. Fizemos uma breve verificação do terreno, nada muito complicado, já que a localidade é bem pequena, possuindo uma única rua principal e poucas secundárias. Passamos por uns três botecos mas fomos atraídos por uma placa que dizia: Pensão da Vovó Dui. Caminhamos cerca de 500 metros, o suficiente pra chegar nesse lugar simples mas de aparência honesta, paredes impecavelmente brancas e preços extremamente convidativos, R$ 3,50 o prato feito, tendo várias possibilidades de combinações, como carne assada com purê de batatas, estrogonofe de frango, macarronada, etc.

Optamos pela comida mineira (Oh, por que será?!) e fomos surpreendidos por dois pratos enormes contendo arroz, feijão preto, lingüiça calabreza acebolada, batatas fritas, um ovo cozido, couve à mineira, torresmo e banana frita à milanesa! Para beber pedimos guaraná. Total da conta: R$ 7,50! Isso mesmo, aposto que você ficou tão surpreso quanto eu! Fazendo as contas verifiquei estupefata que a garrafa de 600 ml de guaraná custava apenas R$ 0,50!
Essa pausa na Pensão da Vovó Dui foi boa pra conversármos com Monica, a cozinheira responsável pela comida farta e gostosa, e com Reinaldo, o dono do estabelecimento que nos forneceu informações preciosas sobre o local. Foi ele quem nos disse, por exemplo, que era possível pegar um ônibus ou uma kombi bem na esquina e subir a serra pra Petrópolis em aproximadamente 40 minutos. Foi dele também que ouvimos, maravilhados, sobre a existência de uma antiga estrada colonial, construída por escravos, por onde o imperador D. Pedro viajava de carruagem até sua cidade (Petrópolis = cidade de Pedro).

A estrada continua intácta, com suas pedras polidas e irregulares originais, sendo possível fazer todo o caminho a pé (não dá pra subir de carro, máquinas muito modernas e frágeis pra dureza e irregularidade do terreno), subindo as montanhas pelo meio da mata atlântica. Algo que já ficou devidamente agendado, em nossos corações e almas, como uma expedição imperdível e obrigatória.

Como tínhamos algum tempo e Petrópolis tava ali do lado, não pudemos resistir. Pegamos um ônibus (R$ 3,00 a passagem até lá e R$ 1,50 até Meio da Serra, um povoado literalmente localizado no meio da serra que dá acesso à cidade) e subimos a serra velha, uma estrada antiga e estreita de paralelepipedo, com curvas tão fechadas que muitas vezes os carros precisavam parar para esperar o ônibus fazer alguma curva. Tudo beirando as encostas em paisagens que nos faziam perder o fôlego: grandes paredões de pedra, entremeados de uma mata abundante e fresca e uma vista do vale, com Vila Inhomirim e toda a Baixada Fluminense, cada vez mais distante e aberta, dando uma noção de amplitude impressionante. Não desgrudamos os olhos das janelas.E, conforme subíamos, a temperatura ia gradualmente caindo. Estávamos definitivamente na serra.

Alcançamos o centro de Petrópolis aproximadamente 45 minutos depois. Nos informamos, na rodoviária, que o ônibus tinha uma regularidade de 20 em 20 minutos, o que nos dava relativamente pouco tempo, já que não podíamos perder o trem das 17:20. Saímos, então, para um passeio rápido pela rua principal, vimos o prédio dos Correios, o Teatro Municipal Grande Otelo, algumas estátuas, pessoas em charretes que relembram os idos do período imperial, ruas floridas, pontes coloridas e românticas.

Uma pena o pouco tempo, pois Petrópolis é uma cidade para se curtir com calma, conhecer seus recantos, falar com as pessoas na rua. Mas tampouco poderíamos ter perdido essa oportunidade. Taí mais uma viagem obrigatória!Pegamos o ônibus de volta e chegamos em 25 minutos na estação de trem. A decida, claro, foi bastante mais rápida já que, como diz o ditado, "pra baixo todo santo ajuda e até o diabo empurra". Tivemos alguns minutos de folga antes da partida, o suficiente para irmos até o início da estrada colonial fazer um reconhecimento ao vivo e a cores.
A volta até Saracuruna foi tranqüila e sonolenta, já que estávamos bastante cansados e a locomotiva puxava o trem de forma lenta e cadenciada. Em Saracuruna pagamos a passagem e embarcamos no trem elétrico de volta à Central do Brasil.
Nesse trem viemos num vagão cheio de trabalhadores da Supervia que deixavam seus turnos de trabalho e voltavam para casa. Vinham brincando, conversando alto, fazendo piadas. Um vendedor ambulante, aparentemente folclórico e conhecido de todos, que passa e grita com as pessoas que estão dormindo, foi recebido por um coral dos mesmos trabalhadores onde seu grito era imitado.

Fizeram isso tantas vezes o vendedor passou pelo vagão, ou seja, pelo menos umas quatro! Isso nos arrancou gargalhadas. Segundo minha namorada, algo assim só acontece no RJ. As pessoas no trem sorrindo, falando umas com as outras, uma agitação gostosa, quente, viva. Coisas de Brasil. Coisas de Rio de Janeiro. Ô, coisa boa!

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